O mundo dela é o mundo que eles compram. Os amigos, os lugares que frequenta, tudo lhe foi comprado. Nenhum amigo de infância pra contar história. Somente os amigos que lhe foram comprados, que são mais amigos deles do que dela. Pseudo amizades que terminam quando o jantar elegante acaba e iniciam novamente quando o próximo evento social começa. Fake plastic trees, fake plastic friends. Seu mundo é o que eles ditam, comandam. Ela só vai até o banheiro porque é só até ali que lhe permitem ir. Porque não lhe permitem sair do campo de visão deles. Por isso ela briga tanto pelo banheiro. Ali é seu reino. Ninguém pode entrar. Sua maior ambição é o chuveiro e o espelho é sua ostentação. É ali que tem o secador que a mantém dele dependente e a maquiagem, que a mantém bela e ao mesmo tempo esconde sua verdadeira idade, talvez esconda também suas tristezas e frustrações.
Já o meu mundo é bem mais amplo. Tem pessoas de todas as cores, orientações e nacionalidades. Todos são acolhidos por mim, que tenho uma visão generosa e quase despida de preconceitos. Tá, sei que isso soa muito Madre Teresa de Calcutá, tipo "olhem como ele é bom samaritano", mas é verdade. Meu mundo vai além de banheiros. Meu mundo é diferente do dela. Gosto de gente simples, que se mostra como realmente é. Gente em que é possível notar as cicatrizes por terem saído de suas zonas de conforto. É essa gente de todas as cores, orientações e nacionalidades, que transcendem qualquer rótulo, que contribuem para o que sou. Gente como nós não tem berço - oxalá tenhamos uma cama pra dormir - pra elite somos apenas "gentinha", mas somos mais livres, nos mostramos como somos e, sim, me atrevo a dizer que somos até mais felizes.
Talvez no fundo eles não sejam más pessoas. Eu é que sou diferente deles. Talvez um dia até se engasguem com seus discursos moralistas, caquéticos e elitistas e seus pensamentos medievais. Por isso é melhor partir, pois meu mundo vai além de banheiros e meu pensamento não parou na idade média.
terça-feira, 21 de julho de 2015
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Shame
"Secretamente, deve sentir muita vergonha de si mesmo. É mesmo muito importante mostrar ao mundo uma cara atrevida, mas suponho que, de vez em quando, estando sozinho e ninguém a observá-lo, você deve retirar a máscara para respirar. Do contrário, já teria morrido sufocado."
(Oscar Wilde, trecho do livro De Profundis)
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Pessoas-água
Há pouco tempo atrás, conversei com dois amigos que fazem mestrado em química e estagiam em um laboratório. Eles estavam criticando a postura de uma colega dissimulada e compararam a hipócrita moça com a água. Segundo eles, a água não se opõe a coisa alguma; ela apenas se molda ao recipiente em que está inserida. Tanto a colega deles quanto a água são capazes de se moldar a qualquer recipiente, a qualquer coisa. Pode parecer que isso é uma qualidade, a da flexibilidade. Mas, neste caso, não é de flexibilidade que estamos falando, e sim da ausência de princípios em algumas pessoas que se moldam conforme lhes é conveniente.
Essa comparação interessantíssima de pessoas com a água cai como uma luva para algumas que conheço. Vou chamá-las de pessoas-água. São o tipo de pessoas que não tomam partido de nada nem de ninguém para agradar a gregos e troianos sempre. Não tomar partido é uma zona de conforto e uma estratégia que foram adquirindo no decorrer de suas vidas e de que nunca vão se livrar. Afinal, elas sabem que podem pagar um alto preço caso expressem suas reais opiniões; isso inclui serem excluídas de um grupo social a qual pertençam. Assim como esses meus amigos compararam pessoas que não tomam partido de nada com a água, recentemente vi uma participante de reality show comparando outra sister com vaselina, pois está sempre escorrendo, escorregando, para não manifestar suas verdadeiras opiniões. Como diz a Teoria do Espiral do Silêncio, desenvolvida pela pesquisadora alemã Elisabeth Noelle Neumann, o indivíduo tende a manter-se em silêncio quando tem um opinião diferente da dos demais, com medo do isolamento social como punição.
Sim, eu sei que se manter em cima do muro é confortável, evita a fadiga e nos poupa de vários aborrecimentos. Mas penso que para ser um amigo verdadeiro e honesto, às vezes é necessário tomar partido de quem você gosta. Tão líquidos quanto as pessoas-água são as relações que elas estabelecem com as demais. Não são relações cujos laços são concretos de amizade verdadeira, são relações superficiais e os laços são líquidos e feitos de álcool. As pessoas-água cultivam relações fúteis baseadas em festas e coisas supérfluas. Elas desaparecem quando chega a hora de ajudar um amigo que está passando por dificuldades, pois quando acaba a festa não existe uma verdadeira amizade. “Me procure apenas para me convidar para tomar uma cerveja, não para pedir conselhos nem um ombro amigo, ok?”, é assim que as pessoas-água pensam.
Porém, um dia irão se deparar com a solidão, pois por terem estabelecidos relações supérfluas e se importado mais com números e quantidade do que com a qualidade dos “amigos” escolhidos, perceberão que estes somem quando a festa acaba.
Quando as pessoas-água estão com você, dão risadinhas convenientes e fazem determinados discursos. Quando estão com chefes, colegas de trabalho e outras pessoas em geral, dão as mesmas risadas convenientes e apresentam os mesmos discursos – semelhante à forma como agem alguns artistas internacionais fabricados em suas turnês mundiais: eles proclamam exatamente o mesmo discurso ensaiado de agradecimentos e afins em todos os países pelos quais passam.
Essa obsessão em querer agradar a todos se estende também ao campo afetivo. Quando estão solteiras se vestem de uma determinada maneira, frequentam um determinado tipo de lugar e escutam um estilo de música específico. Quando começam a namorar, anulam sua própria personalidade e passam a se vestir de uma maneira totalmente diferente do que quando estão solteiras, procurando agradar ao máximo ao (à) parceiro (a). Passam a frequentar lugares e ouvir determinados tipos de música de que nunca gostaram (e que ainda continuam não gostando) apenas para agradar aos (às) atuais namorados (as). E então vemos meninas que a vida inteira se vestiram como patricinhas se transformarem, da noite para o dia, em roqueiras, gaudérias ou qualquer estilo que agrade ao namorado. Sabe aquela menina acéfala que você conhece e que passou a vida inteira escutando lixos musicais? Pois é, atualmente, ela publica em redes sociais que ama rock n’ roll e posta vídeos de clássicos do rock. Diz que ama Led Zeppelin e só conhece “Stairway To Heaven” e olhe lá. Tudo isso por quê? Porque anulou sua própria personalidade para agradar a um namoradinho roqueiro que provavelmente pouco se importa com ela.
E quanto à frase: “O mundo é dos espertos”, discordo. Essa esperteza, na visão de algumas pessoas, é sinônimo de dissimulação, falta de ética e desonestidade. Pessoas honestas não devem se desencorajar com essa frase e achar que só quem é mau caráter se dá bem. Os dissimulados vencem só até certo ponto, mas chega uma hora em que caem do cavalo, como diz o ditado popular. Do que adianta conquistar coisas não sendo verdadeiro e construindo relações baseadas na hipocrisia? É tão bom o gosto de conquistar uma promoção no trabalho sem precisar puxar o saco de chefes e sim pelo seu próprio esforço e talento. Tão gratificante conquistar o carinho das pessoas sem precisar fingir. Tão compensador conquistar coisas sendo quem você é.
Como diz um trecho da música "Não sei", da divertida banda de rock gaúcha TNT, “cansei dessa gente, desse papo furado”. Na idade adulta, temos no mínimo o direito de escolher nossas companhias. Pode parecer conselho barato de livro de auto-ajuda, mas cerque-se apenas de pessoas que te fazem e te desejam o bem. Por isso, se afaste de pessoas-água. Elas são insípidas, inodoras, incolores e em nada te acrescentam. Mas misturadas com o veneno, elas ficam iguais a ele.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Sexo frágil o caramba!
Ao ler o artigo "Terror que usa saia: Especial Dia das Mulheres", no site www.bocadoinferno.com (extremamente recomendado para os fãs do gênero terror), lembrei de algumas personagens femininas em filmes de terror que me marcaram. Sexo frágil? Que nada! As mulheres, nos filmes de terror, matam, torturam, saem no tapa com assassinos e são capazes de qualquer coisa na luta pela sobrevivência.
Nota-se que a partir da década de 80, se instalou na maior parte dos filmes de terror produzidos naquela época uma espécie de mensagem feminista, pois as mulheres, sejam elas mocinhas ou vilãs, de frágeis não tinham nada e geralmente eram as únicas sobreviventes de chacinas promovidas por psicopatas mascarados, depois de terem lutado bravamente contra o assassino. Basta olharmos as franquias Sexta Feira 13 ou Halloween para comprovarmos isto.
Algumas vilãs deixam qualquer assassino do sexo masculino no chinelo. Vingativas, ousadas e agressivas, elas são capazes dos piores crimes regados a muita crueldade e sadismo. Abaixo, uma breve descrição de apenas algumas das várias memoráveis vilãs de filmes de terror e suspense.
Regan MacNeil (O Exorcista): A endemoniada Regan amedrontou gerações com seu antológico giro de cabeça completo. Possuída por algumas entidades do mal, a garota sofria convulsões, falava palavrões e avançava ferozmente contra os padres que tentavam exorcizá-la, para o desespero de sua mãe.
Pamela Voorhees (Sexta Feira 13): A eterna mãe do vilão Jason Voorhees tinha sede de vingança em decorrência da morte do filho, que afogou-se enquanto os monitores do acampamento, que deveriam estar cuidando das crianças, estavam mantendo relações sexuais. Pamela os matou impiedosamente, e anos depois, quando alguns jovens instalaram-se no acampamento, dona Pamela deu sequência à matança, motivada pela morte do filho Jason, até ser decapitada no final.
Alex Forrest (Atração Fatal): Glenn Close interpreta, nesse clássico filme que sempre quero rever, uma executiva que se envolve com Dan Gallagher, interpretado por Michael Douglas. O pobre homem nem imaginava o inferno que sua vida se tornaria. Alex não aceita que o envolvimento tem um curto prazo de validade, afinal Dan é casado, e a partir daí começa a demonstrar o quão perigosa pode ser. Desequilibrada, emocionalmente instável, obsessiva e ardilosa, Alex torna a vida de Dan um inferno.
Peyton Flanders (A Mão que Balança o Berço): Peyton vai trabalhar como babá na casa de uma família e inferniza a todos com uma série de intrigas e crueldades. Quando o jardineiro descobre uma de suas maldades, Peyton dá uma prensa nele literalmente e o ameaça dizendo que terá uma versão bem melhor que a dele caso o pobre o homem a denuncie. Após a ameaça, a babá dá uma bofetada no rosto do jardineiro e o chama de retardado, em uma cena que chega a ser engraçada de tão cruel. O olhar fuzilante e ameaçador que ela lança ao empregado é impagável.
Esther (A Órfã): A pequena garota órfã conquista uma família por se destacar entre as crianças do orfanato. Não demora muito para que Esther mostre sua verdadeira face maléfica. Dentre várias maldades, a que mais merece destaque é a cena em que a órfã ameaça seu irmão adotivo com um estilete dizendo: "Se você contar o que viu, vou cortar o seu pinto fora antes que descubra para o que ele serve".
Já as vítimas, muitas vezes, surpreendem o público mostrando que não são apenas donzelas indefesas e que sabem se defender, lutando ferozmente para se manterem vivas. Em alguns filmes, chegam até a passar de vítimas a assassinas, para vingarem-se de seus algozes. Abaixo, duas mocinhas corajosas que se defenderam bravamente.
Chris (Sexta-Feira 13 Parte III): Ao contrário do que li em um blog, o qual dizia que a sobrevivente de Sexta-Feira 13 Parte III não tinha carisma e não soube lutar ferozmente, eu considero Chris a mais corajosa heroína da franquia. Encurralada dentro de um quarto, a moça teve de retirar uma faca cravada em um cadáver para se defender de Jason. Após esfaquear a mão do assassino e conseguir escapar, Chris ainda tem a coragem de esperar Jason do lado de fora da casa e quando esse sai para fora, ela o ataca com uma enorme pedra golpeando-lhe a cabeça. O duelo assassino X vítima terminou no celeiro, onde a valente garota acertou um golpe de machado em Jason, além de enforcá-lo.
Jennifer (Doce Vingança): O filme, que é um remake de "A Vingança de Jennifer", clássico do década de 70, traz uma Jennifer bem mais cruel e implacável que a original. Jennifer, neste remake, é estuprada por um grupo de homens. Quando pensam que está morta, a garota inicia uma feroz vingança, eliminando impiedosamente um a um dos covardes estupradores.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Realmente vi que havia algo de errado com Esther quando...
Confesso que não gosto muito de filmes de terror ou suspense cujo assassino é uma criança, mas após ler críticas favoráveis sobre “A Órfã” no site http://www.bocadoinferno.com.br/, as quais diziam que o filme tem um final surpreendente (e eu realmente gosto de finais inesperados), resolvi locar “A Órfã” ontem. E recomendo.
A atmosfera tensa e algumas cenas do longa muitas vezes lembram filmes como “O Bebê de Rosemary”, “A Profecia” e até mesmo “O Anjo Malvado”. A atriz mirim Isabelle Furhman consegue convencer na pele da perversa e misteriosa Esther (apesar de que torci para que Esther desse uns bons tabefes na coleguinha de classe que a perturbava). Vera Farmiga, atriz que interpreta Kate, a mãe adotiva de Esther, também realizou uma atuação convincente, que faz com que o telespectador tenha compaixão e torça por ela, já que é a primeira a notar que há algo de errado com Esther e tenta alertar a todos à sua volta, mas sem sucesso é tachada de louca, inclusive pelo próprio marido.
Aliás, "Há algo de errado em Esther" é o slogan do filme e desde o começo tentei imaginar qual seria o segredo da diabólica órfã. Primeiramente pensei em algo óbvio, ou seja, que o filme copiaria a fórmula de "A Profecia" e que Esther seria uma criança discípula do capeta ou membra de uma seita satânica, já que estranhamente usava aquela coleira e se tornava agressiva cada vez que alguém tentava tirá-la. Depois passei a achar que era um plano do marido de Jane para deixá-la louca e que Esther era sua cúmplice. Se as minhas hipóteses estão certas ou erradas, prefiro não revelar caso alguém leia este texto e ainda não tenha visto o filme. Realmente vi que havia algo de errado com Esther quando esta quebra o próprio braço.
"A Órfã" não entrou na minha lista de filmes de suspense favoritos, mas certamente não é um filme ruim, ao contrário, tem uma ótima direção, cenas cheias de tensão e suspense e um desfecho inesperado, então posso dizer que recomendo.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Os 15 anos do Remedinho Amargo
O remedinho amargo que marcou a vida de muita gente, inclusive a minha, completou 15 anos no dia 13 de junho de 2010. Fato que quase passou despercebido por mim, se não tivesse descoberto quarta ou quinta da semana passada através da internet. O remedinho amargo a que me refiro é Jagged Little Pill, o terceiro álbum de Alanis Morissette e o primeiro a ser lançado mundialmente.
Em 1997, eu tinha 12 anos e ouvia falar muito em Alanis Morissette, mas era alienado musicalmente e ainda não era adepto da MTV, então não sabia quem era essa figura tão falada. No verão de 1998, ouvi pela primeira vez o álbum Jagged Little Pill, mas as únicas músicas que me chamaram atenção foram You Learn e Ironic. Gostei muita dessas duas músicas e não liguei para o resto do álbum. Logo liguei a música à imagem e descobri quem era a tal Alanis através de vídeo-clipes. Esperava que fosse mais bonita. Em 1999, escutei o Supposed Former Infatuation Junkie, sucessor do Jagged Little Pill, e gostei de quase todas as músicas. A partir deste ano, comecei a me interessar cada vez mais por Alanis e a gravar seus clipes e shows em fitas de vídeo-cassete. Mais para o fim deste mesmo ano, comecei a descobrir mais músicas do Jagged Little Pill, álbum que eu havia subestimado no ano anterior. Em 2000, Alanis Morissette definitivamente já fazia parte da minha lista de artistas favoritos e a admiração se tornou ainda maior depois que assisti um programa sobre sua vida exibido no Multishow. Sua voz me encantava, assim como também a achei simpática e inteligente. Foi impossível ficar imune a Alanis cada vez que descobria a tradução de alguma de suas músicas. A raiva e a indignação após ter sido traída em You Oughta Know e a bela Unsent - a qual alanis compôs usando trechos de cartas que ela nunca enviou para os caras com quem já se relacionou - me fascinaram. Eu nunca tinha visto em minha vida alguém cantar sobre coisas tão íntimas e de certa forma expor tanto a sua vida pessoal em letras de música.
Então decidi que ia comprar o remedinho amargo. Economizei moeda por moeda e comprei-o em um sábado em meados de dezembro de 2000. Lembro-me que comprei de manhã, em um dia que iria posar sozinho em casa. Esperei até a noite para ouvi-lo. E quando ouvi, entrei em transe. Cada música do álbum, com exceção de Mary Jane (hoje em dia gosto desta canção, inclusive acho que de todas da Alanis esta é a em que a voz dela está mais bonita) e Wake Up, me provocavam arrepios. As melodias, os arranjos e os vocais me agradavam enlouquecidamente. Me identifiquei com Perfect, na qual Alanis fala das pressões e exigências que sofremos por parte da família, que está sempre querendo que sejamos os melhores em tudo e nos comparando com outras pessoas. Aquele grito agoniado que ela dá no trecho "why are you crying..." é de arrepiar. A interpretação vocal de Your House é comovente (por mais piegas que essa palavra soe, não há outra para descrever). A indignação raivosa e eloquente de You Oughta Know também foi incrivelmente marcante. Alguns a consideram como o "hino dos amantes rejeitados", afinal quem nunca se sentiu como Alanis nessa música após levar um par de chifres ou um belo pé na bunda? Aliás, toda essa raiva expressada em You Oughta Know fez com que muita gente pensasse que Alanis era lésbica, pois algumas revistas estampavam Alanis na capa e colocavam chamadas como: "Alanis: a mulher que odeia os homens", assim como também diziam que Alanis havia feito um álbum inteiro de ódio aos homens. Totalmente errado. Alanis nunca disse que odiava homens e muito menos fez um álbum inteiro falando que tem aversão ao sexo masculino. Ela apenas fez uma música para expressar sua raiva após ter sido rejeitada. E nem todas as letras de Jagged são raivosas. Algumas são reflexivas, como You Learn e Ironic e há também a balada Head Over Feet, que fala daquele estado patético de encantamento que as pessoas ficam quando estão apaixonadas e quando tudo é novo. Lembro-me que aquele solo de gaita nesta música foi durante anos altamente viciante para mim.
Assim é Jagged Little Pill: um álbum simples e visceral ao mesmo tempo. Vocais na maior parte do tempo gritados e raivosos, mas as vezes suaves também. Os arranjos são simples, vão do pop rock ao rock alternativo, com pitadas deliciosas de grunge. As letras são confessionais e falam sobre os relacionamentos frustrados de Alanis e sua maneira de ver a vida. Hoje em dia quando escuto Jagged, o impacto musical e emocional já não é mais o mesmo. Acho que a produção poderia ser um pouco menos simplória e ter arranjos mais caprichados e iguais aos que os shows de Alanis tinham ao vivo na época do álbum. You Learn na versão de estúdio tem um simplório arranjo pop rock, mas ao vivo ganhava guitarras pesadas e um belo solo de guitarra virtuoso no meio da música. Mas segundo a própria Alanis e o produtor do álbum, Glen Ballard, ser simples era exatamente a intenção do Jagged: as canções eram compostas em menos de 30 minutos e logo em seguida gravadas. 80% do álbum são as demos originais e nenhuma canção era aprimorada, para que soasse crua e visceral. Sem dúvida, um ótimo álbum dos anos 90 e curiosamente outros três de meus álbuns preferidos também são de 1995: (Wha'ts The History) Morning Glory, do Oasis, The Bends, do Radiohead e Mellon Collie and The Infinite Sadness do Smashing Pumpkins.
Ao contrário do que muita gente pensa, Jagged não é o primeiro álbum de Alanis. É o terceiro, porém o primeiro a ser lançado mundialmente. No Canadá, seu país natal, ela já havia lançado dois álbuns: Alanis (1991) e Now Is The Time (1993). Todos dance-music da pior qualidade. Muitos produtores torceram o nariz para o remedinho amargo, até que a Maverick, gravadora da material girl, contratou Alanis e Jagged se transformou num fenômeno de vendas, vendendo mais de 30 milhões de cópias no mundo inteiro. Alanis, depois de Jagged, lançou álbuns totalmente diferentes, decepcionando a muitos de seus fãs. As músicas de estúdio ficaram mais suaves e perderam o peso de antes e suas performances ao vivo já não tinham mais a mesma agressividade dos tempos de Jagged. Toda vez que Alanis lança um álbum os fãs ainda esperam um "Jagged Little Pill II" e se decepcionam quando o resultado é outro. Talvez a maioria prefira a Alanis raivosa à mulher madura e calma que ela se tornou.
Alanis serviu de referência para cantoras que vieram depois, principalmente para Avril Lavigne, cujo timbre de voz em muitas de suas músicas lembra o estilo de Alanis. Mas a própria Alanis, obviamente, também tem suas referências e inspirações. Alguns acham que Alanis copia ou que no mínimo sua voz lembra a de Dolores O'Riordam, do The Cranberries. Sabe aquele estilo de cantar que muitas cantoras tem, com mudanças de voz que vão do grave ao agudo, com ou sem falsetes, e aquela maneira de cantar gritada e raivosamente com um gemidinho no final de uma frase? Para mim, a precursora nesse estilo de cantar é Sinead O'Connor. Recomendo que escute Jackie, Jerusalem e Troy de Sinead O'Connor e notarão essa influência na maneira de cantar de Alanis e Dolores. Sinead, a carequinha nervosa e revoltada, também abriu portas para cantoras e compositoras que cantam visceralmente sobre seus sentimentos.
Por causa das letras confessionais de Alanis, comecei a me interessar por artistas compositores que seguem esse gênero. E então descobri Bob Dylan, que fez um álbum inteiro falando sobre sua separação, o excelente Blood On The Tracks (1973), a própria Sinead O'Connor, que canta sobre os abusos que sofria na infância e também fala sobre a dor da separação na melancólica canção The Last Day Of Our Acquaintance, Billy Corgan do Smashing Pumpkins e Morissey do The Smiths. Ah, e não poderia deixar de falar de uma cantora indie chamada Liz Phair, que infelizmente passou despercebida pelo grande público. Ela lançou seu primeiro álbum em 1993, chamado Exille On Guyville, e também fazia letras pessoais. A mais chocante delas é Flower, em que fala coisas do tipo: "toda vez que vejo seu rosto fico molhada entre minhas pernas, quero ser sua rainha do boquete e transar até seu pau ficar azul...". Perto dela, a letra de You Oughta Know é cantiga de ninar. Sem falar que por causa da Alanis comecei a me interessar por gaita de boca, e descobri artistas como Aerosmith, Bob Dylan e Neil Young.
Por tudo isso que já foi dito, é que Jagged Little Pill marcou minha vida. Como já falei, nunca tinha visto em minha vida alguém que se abrisse tanto em letras de músicas como Alanis. Um excelente álbum que jamais será esquecido. O mesmo impacto que o remedinho amargo teve em minha vida, Little Earthquakes, de Tori Amos, teve na vida de Alanis. Já estou baixando para conferir que impacto terá na minha.
domingo, 30 de maio de 2010
A falta de conhecimento sobre criação publicitária
Presenciei ano passado uma conversa que revoltaria a qualquer profissional formado ou estudande de Publicidade e Propaganda. Disse um veterano do curso de Jornalismo a uma caloura do mesmo curso que queria migrar para Publicidade: "Para que cursar Publicidade? Basta fazer um curso de 6 meses de coreldraw ou photoshop que você já é publicitária". Infelizmente pensamentos como esse e a falta de conhecimento sobre a área ainda imperam. A publicidade possui várias áreas de atuação como marketing, planejamento de campanha, atendimento, produção em rádio, tv e cinema, mas talvez no segmento de criação de peças gráficas, justamente a área da Publicidade de que mais gosto e na qual trabalho, é que o desconhecimento e a desvalorização parecem ser maiores.
É lamentável, mas muitos pensam como aquele estudante de jornalismo. Acham que para ser publicitário, especialmente da área de criação, só é preciso saber operar programas como coreldraw e photoshop. Sim, realmente existem pessoas que nunca cursaram Publicidade e Propaganda e que entendem destes programas muitas vezes até mais do que publicitários formados. Porém entender destes softwares não torna ninguém publicitário. Fazer um curso de 6 meses de coreldraw e/ou photoshop pode até deixar alguém mestre nestes programas e fazer com que a pessoa conheça e domine todos os truques e efeitos, mas não é em cursos como esses que você aprenderá sobre psicodinâmica das cores e tipologia das fontes. Só um publicitário formado ou que ainda está cursando Publicidade sabe quais são as cores certas na hora de compor um anúncio. Não há dúvidas de que a cor exerce papel importante no psicológico de cada um. As cores são usadas para estimular, acalmar, afirmar, negar, decidir, curar e, no caso da propaganda, vender. É sabido que temos reações e sensações diferentes para cada cor. Por, exemplo o vermelho é uma cor que excita, aquece e desperta a fome, enquanto o azul-claro acalma e transmite refrescância. Sem dúvida tomar como base os estudos e as associações psicológicas do homem diante das cores é importante no momento da criação de um anúncio, uma embalagem ou qualquer que seja a peça publicitária. A linguagem da cor é um meio atrativo que atua sobre o subconsciente dos consumidores. E nestes cursinhos de programas de edição de imagens também não se aprende sobre quais as fontes adequadas para cada tipo de peça, sobre como diagramar e distribuir elementos dentro de uma criação para que esta se torne atrativa e agradável visualmente. Resultado: peças gráficas poluídas, de mau gosto, com cores e fontes inadequadas, produzidas por pessoas que pensam que entendem do assunto. O que algumas pessoas não entendem é que produzir seu próprio material publicitário, embora mais barato, não agrega todos os benefícios que esse material poderia trazer se fosse realizado por profissionais competentes.
E não é só conhecimento sobre significado das cores e tipologia das fontes que o publicitário deve ter. É preciso ter conhecimentos também sobre psicologia e principalmente sobre a língua portuguesa. Deve-se estudar o comportamento dos consumidores; sobre quais são as razões de fundo psicológico que os levam a comprar e como mexer com suas emoções. Para isso é preciso deixar de lado preconceitos e ideias fechadas, como por exemplo, aquelas ideias de que todos os homens são iguais e de que todas as mulheres são iguais. Um pensamento assim é fechado, retrógado e simplista demais. É óbvio que se analisarmos um grupo de mulheres notaremos várias coisas em comum, como gostos e experiências. Mas apesar das semelhanças, não podemos esperar que todas sejam iguais porque cada uma traz consigo uma bagagem cultural própria, conhecimentos e experiências distintas, de acordo com o ambiente que foram criadas. Também devemos levar em consideração outros fatores como religião, regionalismo e classe social. O mesmo se diz dos homens. Apesar das semelhanças, as pessoas jamais serão totalmente iguais justamente por causa destes fatores que foram citados, que moldam a personalidade de cada um, criando vários estilos de vida, tribos e valores diferentes. Há o público infantil, jovem, adulto, idoso, masculino, feminino, de classe baixa ou alta, enfim, há uma infinidade de grupos e tribos, fazendo com que a publicidade seja segmentada, cabendo ao publicitário conhecer o público ao qual se dirige. A maneira de se criar uma peça publicitária para uma ortodoxa dona de casa, esposa e mãe, submissa ao marido e aos filhos é totalmente diferente da maneira de se compor uma peça para uma mulher jovem, solteira, moderna e independente financeiramente.
Conhecer e dominar a língua portuguesa não é só dever de jornalista e de profissionais de Letras. Escrever uma redação publicitária requer conhecimento da língua e uma cuidadosa seleção lexical, afinal palavras são sedutoras, podem tanto atrair como afastar.
Espero ter contribuído de certa forma, com este texto, para acabar com os "achismos" que ainda predominam e que a publicidade, em especial a área de criação, não é uma tarefa arbitrária e que exige apenas o domínio de programas de edição de fotos, e sim uma arte, uma técnica que exige muito estudo, conhecimento sobre os significados das cores e as sensações psicológicas que elas despertam nos seres humanos, sobre signos e semiótica, língua portuguesa, sociologia, filosofia e psicologia, aliando sempre o conhecimento empírico ao conhecimento científico.domingo, 23 de maio de 2010
Figuras históricas de Cruz Alta

A grande maioria das escolas do município de Cruz Alta, região noroeste do Rio Grande do Sul, leva o nome de algum personagem histórico da cidade, porém os cruz-altenses muitas vezes desconhecem quem foram estes personagens e qual foi a importância deles para a cidade.
Um exemplo disso é a professora Margarida Pardelhas, cuja importância para o desenvolvimento da educação em Cruz Alta foi fundamental. A Escola Margarida Pardelhas, que leva o nome desta ilustre mestra, nem sempre se chamou assim. Margarida Pardelhas nasceu em 4 de maio de 1886 na cidade de Porto Alegre. Era filha de José Pardelhas e Simpliciana Pardelhas. Veio para Cruz Alta em 1904 como professora do Colégio Distrital onde trabalhou até ser nomeada diretora do colégio, que recebeu o nome de Colégio Elementar Venâncio Aires. Foi diretora deste estabelecimento de ensino durante 19 anos. Como diretora permaneceu até 1933 ao ser transferida para Porto Alegre, sua terra natal, onde fundou a atual Escola Normal 1º de Maio. A seguir foi para Pelotas como diretora da Escola Normal Assis Brasil e lá permaneceu por quatro anos. Em Cruz Alta lecionou 25 anos, onde completou seu jubileu. Quando foram criadas as delegacias de ensino em 1939, foi convidada para escolher a sede que lhe caberia como dirigente de uma delas. Escolheu a 9ª Delegacia Regional de Ensino em Cruz Alta. A mestra e professora Margarida Pardelhas, no alto desempenho de sua função como delegada, à frente da 9ª Região Escolar, que organizou como titular o cargo uma notável administração, veio a falecer em 7 de julho de 1942. Era solteira e deixou os familiares tristes, porém orgulhosos de suas ações. O Colégio Elementar Venâncio Aires, da qual fora fundadora, após sua morte, prestou sua mais sincera homenagem perpetuando para sempre seu nome. Foi assim que o Colégio Elementar de Cruz Alta, pelo decreto nº 741 de 27/03/1943, passou a denominar-se Grupo Escolar Margarida Pardelhas, em homenagem àquela ilustre mestra que tanto esforço dispendia para elevar cada vez mais o ensino.
Outro personagem que deu nome a uma escola da cidade é o professor Heitor Annes Dias. Filho de Lúcio Annes Dias e de Balbina Lopes Dias, nasceu em Cruz Alta, em 19 de julho de 1884. Fez seus estudos de Humanidades no Ginásio Conceição de São Leopoldo. Ingressou aos 14 anos na Faculdade de Medicina de Porto Alegre, integrando a 2ª turma de alunos por ela diplomados em 1905. Formou-se também em Farmacologia. Aos 21 anos casou-se com Carolina de Revoredo e fixou residência em Cruz Alta. O casal teve dois filhos: Carmem e Cássio Annes Dias. Em 1908, com 23 anos após brilhante concurso, foi nomeado professor de Medicina Legal e Toxicologia, iniciando a sua bem sucedida carreira de professor em Porto Alegre. A seguir foi indicado para a cadeira de Medicina Legal na faculdade de Direito. Durante nove anos lecionou esta disciplina. Em 1917 viajou para a Europa, onde ocorreu a transformação do bom professor de Medicina Legal no grande mestre de Clínica Médica. Ao retornar, em 1918, após proveitoso estágio nos hospitais de Paris, onde esteve a serviço do maior mestre da medicina francesa contemporânea, Widal, foi indicado provisoriamente para a Cátedra (cargo ou função de professor de disciplina de nível universitário, ocupado por professor titular) da 3ª Clínica Médica. Começa aí uma nova etapa para a medicina gaúcha. De 1919 a 1934, quando eleito deputado à Constituinte, embarcou para o Rio de Janeiro, exerceu a Clínica, lecionou e escreveu seus primeiros livros. Em 1934, a Medicina venceu a política e o professor foi transferido para a Universidade do Brasil, na capital federal. Lá seu talento pôde atingir a plenitude do amadurecimento e a sua obra tornou-se mais plena. Annes Dias foi, acima de tudo, um professor e um investigador. Ensinava com competência e sabedoria. Poucos cruz-altenses sabem, mas Annes Dias foi o primeiro médico brasileiro que mostrou as vantagens e os benefícios que o laboratório traz, como coadjuvante da medicina e da cirurgia e o criador de um capítulo novo da medicina mundial: a metereologia clínica.
domingo, 18 de abril de 2010
Resultado da soma de vários artistas

Para muitos adolescentes de hoje em dia que pouco conhecem sobre música de outras épocas, Joanne Stefani Germanotta, mais conhecida como Lady Gaga, parece ser uma cantora inovadora. Talvez por estarem acostumados com cantoras como Katy Perry e Rihanna, a nova geração vê Lady Gaga como uma artista inovadora por ter um visual incomum se comparada com outras cantoras contemporâneas. Irreverente, sim. Inovadora não.
Tudo o que Lady Gaga faz em termos de música e de imagem (começando por seu nome artístico, afinal Gaga é uma referência à canção Radio Ga Ga do Queen) não é nenhuma novidade para quem conhece artistas de épocas passadas, e não apenas aqueles que surgiram a partir da década de 2000. Quando vi Joanne, ou Lady Gaga, pela primeira vez, no clipe "Just Dance", talvez por seus cabelos louros e sua aparência e dancinhas sensualizadas, logo pensei: "Apenas mais uma de milhares de cantoras tentando ser uma nova Madonna, ou talvez até uma cópia de Britney Spears". Mas logo outros clipes de Gaga foram surgindo e percebi que não é só a rainda do Pop que ela quer copiar, ou se inspirar, ou como preferirem. Em muitos clipes, sua maquiagem esquisita bem como penteados e vestimentas andróginas, lembram David Bowie e a diva pop espalhafatosa dos anos 80, Cyndi Lauper; a própria Lady Gaga já afirmou que Cyndi é uma de suas inspirações. Reparem também como o penteado que Gaga aparece na tomada em que está descendo de um carro e sendo fotografada no clipe de Papparazi é bastante parecido com o penteado de Cindy Wilson, do B-52's, no clipe de Legal Tender, de 1985, o ano em que nasci. Também é impossível não comparar Gaga com Grace Jones e a esquisita Nina Hagen. Para quem considera Lady Gaga como uma esquisitona da música por ter um visual chocante, saiba que ela está longe de ser uma pioneira dos esquisitões...
O visual de Gaga nada mais é do que o resultado da soma de vários artistas que faziam sucesso quando ela não havia sequer nascido. David Bowie chocava o público com seu visual andrógino nos anos 70; o público da época talvez nunca tivesse visto antes algum artista com aquelas vestimentas e maquiagem estranhas (ele chegou a declarar que era um ET). Alice Cooper também causou impacto por sua aparência e performances bizarras na mesma época. Nos anos 80 foi a vez de Siouxie, vocalista da banda pós-punk new wave Siouxsie and The Banshees apostar em um visual incomum, que serviu como base para a moda gótica e punk. Não podemos deixar de citar também a bochechuda e escandalosa Cyndi Lauper, com seus cabelos coloridos e roupas estravagantes, estilo que Nina Hagen também adotava. Já nos anos 90, foi a vez de Marilyn Manson criar polêmica por sua imagem nada usual.
Em termos de música, Lady Gaga também não apresenta nada de novo. Apenas copia velhas fórmulas que há muito tempo já foram usadas e que já conhecemos. O produtor do disco aposta em sintetizadores, bateria eletrônica e refrões grudentos, algo que já vimos muito nos anos 80, em músicas de Cyndi Lauper, Madonna e Depeche Mode.
Mas devo confessar que algumas músicas do álbum Fame Monster me agradaram, como Paparazzi, Summer Boy, Brown Eyes e Love Game. Ao menos têm boas melodias, ao contrário do som plastificado, sem graça e insosso de Britney Spears e outras do gênero
segunda-feira, 8 de março de 2010
Desfecho frustrante, mas ótimas cenas
Sim, o final é decepcionante, como algumas pessoas haviam me dito, inclusive a funcionária da locadora onde loquei o filme. Mas ainda assim, Os Estranhos não pode deixar de ser considerado um bom filme de suspense.
O casal Kristen e James, interpretados respectivamente por Liv Tyler e Scott Speedman, vivem uma noite de pesadelos quando se hospedam na casa do pai de James. O que era pra ser uma noite romântica e de reconciliação - já que o casal havia brigado - se torna um inferno a partir do momento em que uma estranha mulher cujo rosto não aparece para o telespectador bate na porta pedindo informações. Kristen fica sozinha enquanto seu marido (não sei se é o termo correto, pois o filme não deixa claro se eram casados) sai para dirigir e é perseguida por um trio de sádicos mascarados extremamente assustadores. Ao longo do filme me questionei se se tratava de uma armação de James ou se os três mascarados eram na verdade fantasmas, pois a maneira como surgiam e logo após desapareciam era quase sobrenatural. O estreante roteirista e diretor do filme Bryan Bertino acertou em cheio na iluminação e nas cores fortes e contrastantes, o que contribui para tornar o filme tenso e para que nem sempre o telespectador possa identificar claramente o que está acontecendo. Genial a cena em que Kristen está na cozinha e um dos assassinos mascarados surge sutilmente e a observa por algum tempo. Para mim a cena mais marcante e assustadora do longa. E é claro que não poderiam faltar os clichês básicos que aparecem em todos os filmes de terror, como quando o casal decide se separar para verificar o que está acontecendo; James corre floresta a dentro enquanto Kristen fica sozinha na casa, sendo que se ficassem juntos teriam muito mais chances de se defender. Mas sabem como é, esses clichês nos parecem ridículos porque são totalmente diferentes das atitudes que teríamos na vida real diante de uma situação de perigo, entretanto servem para aumentar o suspense e contribuem de certa forma para a história do filme.
Final frustrante? Sem dúvida. Porém Os Estranhos vale a pena ser olhado pelos amantes de terror e suspense porque é inegável a sua eficiência em causar sustos e fazer com que o telespectador seja envolvido pelo clima de tensão que começa quando o casal chega à casa do pai de James e dura até o final. Há rumores de uma continuação, o que talvez justifique o desfecho abstrato que não explica as dúvidas do telespectador sobre o porquê dos acontecimentos.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Cynthia surgia na escuridão, há um ano atrás

No verão de 2000, estava eu em meu quarto zapeando pela tv, quando vejo em um canal, um vídeo clipe no qual aparecia uma mulher de cabelo vermelho berrante ao som de uma bela música lenta. A canção me agradou e a imagem daquela mulher exótica me chamou atenção. Peguei papel e caneta para anotar. O nome da música era "Time After Time" e a cantora era Cyndi Lauper. Acho que é a partir daí que começa a minha história...
Aqui estou eu exata e vergonhosamente um ano após a apresentação de Cyndi Lauper em Porto Alegre escrevendo sobre aquele inesquecível show que marcaria a minha vida para sempre. Já aviso antecipadamente aos fãs da cantora que, antes de me jogarem pedras quando lerem algo neste texto que não concordem, lembrem-se que a internet é um meio de comunicação democrático, então sinto-me livre para expressar minha opinião sobre o show neste blog.
Ainda no mesmo ano de 2000, assisti a um documentário sobre a vida de Cyndi. A admiração foi instantânea. Sua vida não foi nada fácil antes de atingir o estrelato. Discriminada por ter pais divorciados, Cyndi sofreu humilhações em escolas católicas onde estudava. Ela conta que, certa vez, quando era criança, ao brincar de massagear uma coleguinha, foi surpreendida por uma freira que a chamou de lésbica. Baixou suas calças e a humilhou diante de todos. Cyndi disse que nem sabia o que significava a palavra lésbica. Nesse mesmo documentário, descobri que já conhecia a música "Girls Just Want To Have Fun" (que simplesmente "grudou" em minha mente), além de descobrir músicas como "Money Changes Everything" e "True Colors". A imagem incomum de Cyndi; com cabelos coloridos e roupas irreverentes, seu jeito de ser ora cômico ora sensível e sua trajetória me conquistaram de imediato. Então passei a comprar cds e dvds, e constatei toda a potência da voz de Cyndi ao vivo, bem como sua presença de palco, sua entrega e simpatia com o público. Assim estava formada a imagem de Cyndi Lauper em meu imaginário: uma mulher alegre, espalhafatosa, usando roupas e cabelo incomuns, humanitária e humilde.
No inverno de 2008, começaram os boatos de uma turnê de Cyndi no Brasil, que passaria por Porto Alegre. Não demorou muito para que a turnê se confirmasse, para a minha alegria e também desespero. Desempregado, como arranjaria dinheiro para ir ao show? Tempo era o que não me faltava, pois o show aconteceria no dia 19 de novembro. Surgiram entrevistas de emprego e de estágio, mas nada foi concretizado. Lembrei-me da cena do filme "...E o Vento Levou" em que Scarlet O'Hara agarrando uma cenoura perto de uma árvore, diz algo como: "Por Deus eu juro, nem que eu tenha que matar, roubar, mentir, trair, jamais sentirei fome novamente!". Estava desperado diante da falta de dinheiro, mas ao mesmo tempo coloquei em minha cabeça que iria a esse show de qualquer maneira. Minhas expectativas quanto ao show eram as melhores, e imaginei que se eu fosse, seria o mais jovem dos fãs na platéia, pois achava que os adolescentes de hoje não conheciam Cyndi Lauper e a maioria das pessoas teria acima de 30 anos. Consegui uma grana, comprei o ingresso e numa terça-feira, dia 18 de novembro, embarquei em um ônibus rumo a Porto Alegre.
Ansiedade e expectativa eram sentimentos inevitáveis. Hospedei-me no apartamento de uma amiga e à noite, eu, ela e seu namorado assistimos aos dvds "Live In Paris" de 1987 e "At Last... Live", de 2004. Ambos ficaram encantados com a presença de palco o jeito irreverente de ser de Cyndi em "Live In Paris", como também se surpreenderam com sua ótima performance vocal em "At Last... Live". Começamos a discutir se o show lotaria ou não. Minha amiga disse que não; seu namorado imaginou que sim, e que o melhor seria eu ir bem antes do horário marcado para o início do espetáculo, afim de conseguir um bom lugar.
Na quarta-feira, dia 19, o dia do tão aguardado show, a ansiedade e a expectativa triplicaram. Por algum motivo, comecei a achar que poucas pessoas compareceriam ao show; então não precisaria ir tão cedo, visto que o show estava marcado para às 21 horas. Não lembro o horário exato, mas creio que lá pelas 18 horas e 30 minutos, peguei um táxi e me fui rumo ao Teatro Bourbom Country. Chegando lá, frustrei-me com a pouca quantidade de pessoas na fila. Entrando no teatro, poucas pessoas lá se encontravam (aliás, para a minha sorte, foi permitida a entrada de câmeras digitais). Fui para a frente da pista, onde tinham estruturas de ferro que separavam a pista do palco. Tentava enxergar a distância entre a pista e o palco mas não conseguia, torcendo para que fosse a menor possível. Comecei a conversar com duas gurias da cidade de Viamão. Comentamos sobre a escassez de pessoas no teatro, mas elas acreditavam que ainda era cedo e que o público chegaria mais perto das 21 horas. Ficamos imaginando qual seria a primeira música que Cyndi Lauper cantaria, se entraria no palco exatamente no horário marcado etc. Quando me dei conta, a quantidade de pessoas no teatro era enorme. A pista ficou lotada, assim como o mezanino e a área vip. Qualquer movimentação no palco fazia com que o público pensasse que já era Cyndi Lauper e gritavam seu nome histericamente. Essa expectativa e ânsia para que inicie logo o show é indescritível. E a gritaria continuava cada vez quem alguém entrava no palco afim de ajustar algum equipamento. Imaginei que quando iniciasse o show, um telão e um jogo de luzes apareceriam no palco criando expectativa, a banda faria uma introdução e então Cyndi entraria no palco. Mas para a minha surpresa...
Às 21 horas em ponto, Cyndi Lauper apareceu no palco. Sem luzes, sem banda, apenas ela. Ela falava algo em inglês que eu não conseguia traduzir, e parecia estar descontente com algo. O público delirava. Cyndi repetiu a indecifrável frase várias vezes e eu cheguei a pensar que ela não queria câmeras fotográficas na platéia (afinal eu ouvi um boato que Cyndi estava blasé). Então, iniciou-se o show, com a clássica oitentista “Change of Heart”. Os fãs enlouqueceram. Inesperadamente, Cyndi desceu do palco e ficou na distância mínima que separava o palco da platéia. Ia de um lado para outro, pegando nas mãos das pessoas. Tentei o máximo que pude ir para a primeira fileira para ao menos encostar em sua mão, mas não obtive sucesso. Cyndi, no início do show, parecia estar irritada, mas não descontou no público e não demorou para que fizesse suas clássicas “dancinhas” exatamente como as que eu via nos dvds. Logo após “Change of Heart”, Cyndi cantou algumas músicas de seu último cd, “Bring Ya to the Music”. O público sabia de cor as letras, ao contrário de mim, que sou um fã saudosista e esperava mais pelos clássicos dos anos 80. Cyndi desceu várias vezes para a frente da platéia, e todos da primeira fileira pegaram em sua mão. Tentei várias vezes, sempre sem sucesso. Foi aí que me arrependi de não ter ido mais cedo. Apesar de estar em uma posição privilegiada, onde via tudo de perto, não consegui tocar em sua mão nem trocar palavras com ela. Um guri que estava na platéia comentou: “Ela é do povão, por isso eu gosto dela”. Eu concordo.
Depois de cantar músicas do último álbum, Cyndi tocou “All Through The Night”, clássico do cd de estréia “She’s So Unusual”, de 1983, para o delírio dos fãs mais retrôs como eu. Em “She Bop”, se não me engano, a pobrezinha derrubou o pedestal e fez uma carinha de desconcertada. À certa altura do show, os fãs cantaram “Happy Birthday To You” e não entendi por quê, afinal seu aniversário é em julho. Muito legal da parte de Cyndi ter cantado músicas que não estavam incluídas em seu repertório apenas porque os fãs pediram (creio que “Shine” e “Good Enough”, esta última sucesso da década de 80 que não podia faltar). Com uma energia inesgotável e grande potência vocal, Cyndi Lauper colocou o público do teatro abaixo quando cantou hits como “Money Changes Everything”, “Girls Just Wanto To Have Fun”, “Time After Time” e “True Colors”. Não apenas Cyndi é merecedora de elogios, o público também o é (aliás, para a minha surpresa eu não era o mais novo na platéia. Havia uma grande quantidade de adolescentes). As pessoas cantavam animadíssimas, gritavam, vibravam e pulavam do início ao fim. Pareciam hipnotizados pela presença de Cyndi. Também não poderia ser diferente. Há como ficar parado e triste em um show de Cyndi Lauper? No final, todos deixaram o teatro com sorrisos estampados no rosto, elogiando e satisfeitos com a apresentação.
Críticas de minha parte? Sim. Achei que o show poderia ter uma produção melhor com direito a telão, jogo de luzes e troca de roupas. Sim, eu sei também que muita gente vai dizer que Cyndi não precisa disto, e que hipnotiza a platéia apenas com sua presença e voz, ao contrário de outras cantoras que compensam sua deficiências vocais com shows onde o forte são as imagens e as mega-produções. Porém, uma produção melhor não faria mal algum ao show de Cyndi. A Cyndi Lauper que eu tinha formada no meu imaginário corresponde à Cyndi que vi ao vivo? Sim, mas talvez um pouco menos simpática e sorridente do que esperava. Também achei frustrante a maneira como ela entrou no palco, mesmo sabendo que a culpa não foi dela. Uma estrela da música jamais deveria entrar no palco na total penumbra (somente quando retornei para casa, através do orkut, descobri que não ligaram as luzes quando Cyndi entrou, e que a tal frase indecifrável era: “Can I have a light?”. Também descobri que o público estava cantando “Happy Birthday To You” para o filho de Cyndi, Declyn, que estava de aniversário naquele dia). Talvez fosse desnecessário a presença de outra mulher na banda, a tecladista e backing vocal. Cyndi deveria ser a única mulher.
Hoje completa um ano do show de Cyndi Lauper. E toda vez que lembro dele, não importa o quão mal-humorado esteja, um sorriso me vem ao rosto. Afinal não é sempre que podemos ver tão de perto alguém que faz parte de nosso imaginário e que achávamos que nunca veríamos ao vivo. E tomara que um dia Cyndi retorne ao Rio Grande do Sul. Dessa vez com as luzes bem acesas.
Ainda no mesmo ano de 2000, assisti a um documentário sobre a vida de Cyndi. A admiração foi instantânea. Sua vida não foi nada fácil antes de atingir o estrelato. Discriminada por ter pais divorciados, Cyndi sofreu humilhações em escolas católicas onde estudava. Ela conta que, certa vez, quando era criança, ao brincar de massagear uma coleguinha, foi surpreendida por uma freira que a chamou de lésbica. Baixou suas calças e a humilhou diante de todos. Cyndi disse que nem sabia o que significava a palavra lésbica. Nesse mesmo documentário, descobri que já conhecia a música "Girls Just Want To Have Fun" (que simplesmente "grudou" em minha mente), além de descobrir músicas como "Money Changes Everything" e "True Colors". A imagem incomum de Cyndi; com cabelos coloridos e roupas irreverentes, seu jeito de ser ora cômico ora sensível e sua trajetória me conquistaram de imediato. Então passei a comprar cds e dvds, e constatei toda a potência da voz de Cyndi ao vivo, bem como sua presença de palco, sua entrega e simpatia com o público. Assim estava formada a imagem de Cyndi Lauper em meu imaginário: uma mulher alegre, espalhafatosa, usando roupas e cabelo incomuns, humanitária e humilde.
No inverno de 2008, começaram os boatos de uma turnê de Cyndi no Brasil, que passaria por Porto Alegre. Não demorou muito para que a turnê se confirmasse, para a minha alegria e também desespero. Desempregado, como arranjaria dinheiro para ir ao show? Tempo era o que não me faltava, pois o show aconteceria no dia 19 de novembro. Surgiram entrevistas de emprego e de estágio, mas nada foi concretizado. Lembrei-me da cena do filme "...E o Vento Levou" em que Scarlet O'Hara agarrando uma cenoura perto de uma árvore, diz algo como: "Por Deus eu juro, nem que eu tenha que matar, roubar, mentir, trair, jamais sentirei fome novamente!". Estava desperado diante da falta de dinheiro, mas ao mesmo tempo coloquei em minha cabeça que iria a esse show de qualquer maneira. Minhas expectativas quanto ao show eram as melhores, e imaginei que se eu fosse, seria o mais jovem dos fãs na platéia, pois achava que os adolescentes de hoje não conheciam Cyndi Lauper e a maioria das pessoas teria acima de 30 anos. Consegui uma grana, comprei o ingresso e numa terça-feira, dia 18 de novembro, embarquei em um ônibus rumo a Porto Alegre.
Ansiedade e expectativa eram sentimentos inevitáveis. Hospedei-me no apartamento de uma amiga e à noite, eu, ela e seu namorado assistimos aos dvds "Live In Paris" de 1987 e "At Last... Live", de 2004. Ambos ficaram encantados com a presença de palco o jeito irreverente de ser de Cyndi em "Live In Paris", como também se surpreenderam com sua ótima performance vocal em "At Last... Live". Começamos a discutir se o show lotaria ou não. Minha amiga disse que não; seu namorado imaginou que sim, e que o melhor seria eu ir bem antes do horário marcado para o início do espetáculo, afim de conseguir um bom lugar.
Na quarta-feira, dia 19, o dia do tão aguardado show, a ansiedade e a expectativa triplicaram. Por algum motivo, comecei a achar que poucas pessoas compareceriam ao show; então não precisaria ir tão cedo, visto que o show estava marcado para às 21 horas. Não lembro o horário exato, mas creio que lá pelas 18 horas e 30 minutos, peguei um táxi e me fui rumo ao Teatro Bourbom Country. Chegando lá, frustrei-me com a pouca quantidade de pessoas na fila. Entrando no teatro, poucas pessoas lá se encontravam (aliás, para a minha sorte, foi permitida a entrada de câmeras digitais). Fui para a frente da pista, onde tinham estruturas de ferro que separavam a pista do palco. Tentava enxergar a distância entre a pista e o palco mas não conseguia, torcendo para que fosse a menor possível. Comecei a conversar com duas gurias da cidade de Viamão. Comentamos sobre a escassez de pessoas no teatro, mas elas acreditavam que ainda era cedo e que o público chegaria mais perto das 21 horas. Ficamos imaginando qual seria a primeira música que Cyndi Lauper cantaria, se entraria no palco exatamente no horário marcado etc. Quando me dei conta, a quantidade de pessoas no teatro era enorme. A pista ficou lotada, assim como o mezanino e a área vip. Qualquer movimentação no palco fazia com que o público pensasse que já era Cyndi Lauper e gritavam seu nome histericamente. Essa expectativa e ânsia para que inicie logo o show é indescritível. E a gritaria continuava cada vez quem alguém entrava no palco afim de ajustar algum equipamento. Imaginei que quando iniciasse o show, um telão e um jogo de luzes apareceriam no palco criando expectativa, a banda faria uma introdução e então Cyndi entraria no palco. Mas para a minha surpresa...
Às 21 horas em ponto, Cyndi Lauper apareceu no palco. Sem luzes, sem banda, apenas ela. Ela falava algo em inglês que eu não conseguia traduzir, e parecia estar descontente com algo. O público delirava. Cyndi repetiu a indecifrável frase várias vezes e eu cheguei a pensar que ela não queria câmeras fotográficas na platéia (afinal eu ouvi um boato que Cyndi estava blasé). Então, iniciou-se o show, com a clássica oitentista “Change of Heart”. Os fãs enlouqueceram. Inesperadamente, Cyndi desceu do palco e ficou na distância mínima que separava o palco da platéia. Ia de um lado para outro, pegando nas mãos das pessoas. Tentei o máximo que pude ir para a primeira fileira para ao menos encostar em sua mão, mas não obtive sucesso. Cyndi, no início do show, parecia estar irritada, mas não descontou no público e não demorou para que fizesse suas clássicas “dancinhas” exatamente como as que eu via nos dvds. Logo após “Change of Heart”, Cyndi cantou algumas músicas de seu último cd, “Bring Ya to the Music”. O público sabia de cor as letras, ao contrário de mim, que sou um fã saudosista e esperava mais pelos clássicos dos anos 80. Cyndi desceu várias vezes para a frente da platéia, e todos da primeira fileira pegaram em sua mão. Tentei várias vezes, sempre sem sucesso. Foi aí que me arrependi de não ter ido mais cedo. Apesar de estar em uma posição privilegiada, onde via tudo de perto, não consegui tocar em sua mão nem trocar palavras com ela. Um guri que estava na platéia comentou: “Ela é do povão, por isso eu gosto dela”. Eu concordo.
Depois de cantar músicas do último álbum, Cyndi tocou “All Through The Night”, clássico do cd de estréia “She’s So Unusual”, de 1983, para o delírio dos fãs mais retrôs como eu. Em “She Bop”, se não me engano, a pobrezinha derrubou o pedestal e fez uma carinha de desconcertada. À certa altura do show, os fãs cantaram “Happy Birthday To You” e não entendi por quê, afinal seu aniversário é em julho. Muito legal da parte de Cyndi ter cantado músicas que não estavam incluídas em seu repertório apenas porque os fãs pediram (creio que “Shine” e “Good Enough”, esta última sucesso da década de 80 que não podia faltar). Com uma energia inesgotável e grande potência vocal, Cyndi Lauper colocou o público do teatro abaixo quando cantou hits como “Money Changes Everything”, “Girls Just Wanto To Have Fun”, “Time After Time” e “True Colors”. Não apenas Cyndi é merecedora de elogios, o público também o é (aliás, para a minha surpresa eu não era o mais novo na platéia. Havia uma grande quantidade de adolescentes). As pessoas cantavam animadíssimas, gritavam, vibravam e pulavam do início ao fim. Pareciam hipnotizados pela presença de Cyndi. Também não poderia ser diferente. Há como ficar parado e triste em um show de Cyndi Lauper? No final, todos deixaram o teatro com sorrisos estampados no rosto, elogiando e satisfeitos com a apresentação.
Críticas de minha parte? Sim. Achei que o show poderia ter uma produção melhor com direito a telão, jogo de luzes e troca de roupas. Sim, eu sei também que muita gente vai dizer que Cyndi não precisa disto, e que hipnotiza a platéia apenas com sua presença e voz, ao contrário de outras cantoras que compensam sua deficiências vocais com shows onde o forte são as imagens e as mega-produções. Porém, uma produção melhor não faria mal algum ao show de Cyndi. A Cyndi Lauper que eu tinha formada no meu imaginário corresponde à Cyndi que vi ao vivo? Sim, mas talvez um pouco menos simpática e sorridente do que esperava. Também achei frustrante a maneira como ela entrou no palco, mesmo sabendo que a culpa não foi dela. Uma estrela da música jamais deveria entrar no palco na total penumbra (somente quando retornei para casa, através do orkut, descobri que não ligaram as luzes quando Cyndi entrou, e que a tal frase indecifrável era: “Can I have a light?”. Também descobri que o público estava cantando “Happy Birthday To You” para o filho de Cyndi, Declyn, que estava de aniversário naquele dia). Talvez fosse desnecessário a presença de outra mulher na banda, a tecladista e backing vocal. Cyndi deveria ser a única mulher.
Hoje completa um ano do show de Cyndi Lauper. E toda vez que lembro dele, não importa o quão mal-humorado esteja, um sorriso me vem ao rosto. Afinal não é sempre que podemos ver tão de perto alguém que faz parte de nosso imaginário e que achávamos que nunca veríamos ao vivo. E tomara que um dia Cyndi retorne ao Rio Grande do Sul. Dessa vez com as luzes bem acesas.
domingo, 31 de maio de 2009
Esperando pelos cheques
Lares perfeitos, amores como você sempre sonhou ter, carros, empregos e promoções. Segundo o livro, você pode ter tudo isso em sua vida desde que pense positivo. Pessoas que viviam na mais completa miséria deram seus depoimentos dizendo que viraram milionários como em um passe de mágica. Outras contam que tinham doenças incuráveis e graças à força do pensamento livraram-se delas do dia para a noite. E aí você lê coisas como: “não importa quem você é ou onde está. O segredo pode lhe dar o que você quiser”, “O Segredo lhe dá tudo o que você quiser: felicidade, saúde e riqueza” e “tudo o que entra em sua vida é você que atrai por meio de imagens que mantém em sua mente”. Até aí tudo bem. O problema é quando li depoimentos de pessoas que afirmam que recebiam cobranças diariamente pelo correio, mas depois de lerem O Segredo passaram a receber cheques milionários por correspondência. O riso foi inevitável após ler tamanho absurdo. E os absurdos que me causaram gargalhadas não param por aí. De acordo com O Segredo, uma pessoa é obesa não por sua genética ou pela quantidade de comida que consome, e sim porque tem “pensamentos obesos”, pois se tivesse “pensamentos magros” seria magra.
O que o livro prega basicamente é que se você passar a pensar positivamente, sua vida mudará, você será milionário e terá tudo o que quiser. Se pensar sempre de forma positiva fosse a solução para nossos problemas, seria ótimo. Mas sabemos que na prática as coisas são diferentes e ainda não foi inventada uma fórmula mágica para que sejamos felizes o tempo inteiro. O pensamento positivo não tem nenhuma contra-indicação e faz bem a saúde mental, mas não é uma garantia que tudo vai dar certo em sua vida. A vida é cheia de acasos, coincidências e acontecimentos inesperados, e garanto a você que não há pensamento positivo que possa evitar certos fatos. E contrariando aquilo que a lei da atração afirma no livro, de que tudo de ruim ou bom que nos acontece é porque nós mentalizamos e consequentemente atraímos, todos sabemos que podemos sair de casa felizes, achando que tudo vai dar certo naquele dia, e mesmo assim sermos atropelados em uma rua qualquer; bem como podemos estar mal-humorados e pessimistas e de repente as coisas começam a dar certo (essas questões não são respondidas no livro, e as pessoas que acreditam no conteúdo dele também não sabem responder, ao menos de maneira convincente). Realmente acho que uma pessoa otimista tem mais chance de alcançar seus objetivos em comparação a uma pessimista, mas não por uma questão mística ou algo do gênero, e sim porque a pessoa otimista não desiste facilmente de seus propósitos por acreditar que vai dar certo, já a pessimista não sai do ponto de partida em busca de suas metas pelo medo do fracasso. Agora afirmar que o pensamento positivo faz com que você sempre consiga tudo o que deseja é ingenuidade, para dizer o mínimo. Algumas pessoas bem-sucedidas na vida falam que outras não se esforçam e não batalham pelo que querem. Em alguns casos até pode ser esta a causa do fracasso, mas em outros não. Há pessoas que batalham anos por um emprego ou por outro objetivo, mas jamais os conseguem. Enquanto outras conquistam o que querem em um piscar de olhos. Não precisam batalhar, as oportunidades simplesmente surgem para elas. Se isso é uma questão de sorte, de puro acaso ou mística/espiritual, é uma questão do ponto de vista de cada um.
O livro recomenda também que, cada vez que um pensamento ou recordação que o deixar triste surgir em sua mente, você escute uma música que o alegre. Tente fazer isso no dia em que morrer alguém de quem você goste e você verá que não adiantará. E mesmo que adiante, essa felicidade seria momentânea e falsa, porque querendo ou não a dor de perder alguém querido virá mais cedo ou mais tarde. É como ir a uma balada no dia da morte de sua mãe para não sentir-se triste. Tentar fugir dessa dor é apenas protelar o período de luto, que é inevitável e virá com mais intensidade se não for vivido no momento certo.
Contudo, para a minha surpresa, nem todo o conteúdo de O Segredo é baboseira. Há algumas dicas relativamente úteis sobre auto-estima, como por exemplo não subestimar nossa própria inteligência e acreditar em nossa capacidade.
Enfim, poderia concluir dizendo que simplesmente detesto literatura de auto-ajuda e que livros como O Segredo são escritos sob medida para pessoas ignorantes, mas nesse caso estaria arrumando briga com aqueles que acreditam na ideologia de que o pensamento positivo muda tudo para melhor, e não é essa minha intenção. O que posso concluir com 100% de certeza é que não sou ingênuo o suficiente para acreditar que vivo em um conto de fadas no qual minha vida será repleta de momentos felizes em tempo integral e isenta de problemas após descobrir um segredo. Sim, acredito que pensamento positivo traz benefícios, mas não é uma garantia de que tudo vai dar certo, pois existe o acaso e várias outras coisas que independem de nós e que podem nos impedir de conseguir o que queremos. A vida é assim mesmo, alguns sonhos vamos realizar e outros não, talvez o segredo mesmo seja saber lidar com a frustração e seguir adiante. Acredito também que o conceito de felicidade é pessoal; e não uma receita que possa ser vendida em livros, revistas e documentários. Agora já posso dizer que li O Segredo, mas os cheques milionários ainda não chegaram na minha caixa de correio...
domingo, 21 de setembro de 2008
As mulheres na música

O mundo de forma geral é machista, como todos sabem. Em muitas áreas, os homens obtêm mais reconhecimento do que as mulheres, e no universo da música não poderia ser diferente. Na música brasileira, não se nota esse "machismo musical", pois temos cantoras consagradas e inesquecíveis como Elis Regina, Rita Lee e Ivete Sangalo. Porém, se você pedir que eu cite agora o nome de uma cantora de reggae, ficarei lhe devendo uma sugestão, pois só me veio à mente nomes como Bob Marley e Peter Tosh. Já no pop, as mulheres foram e ainda são muito valorizadas. O maior ícone feminino deste gênero é Madonna, mas Alanis Morissette (que também "flertou" com o rock), Blondie, Cyndi Lauper (considero-a como a própria personificação dos anos anos 80) e Tina Turner tiveram carreiras extremamente bem sucedidas. O jazz também tem suas musas como Billie Holiday e Etta James.
Mas o terreno musical que mais quero explorar é o rock, pois é nele que muitos homens brilharam e foram venerados, enquanto muitas artistas femininas passaram despercebidas. Quando se fala em rock n’ roll, a primeira e talvez única mulher que as pessoas lembram é Janis Joplin, enquanto outras artistas não menos talentosas tiveram seus trabalhos pouco reconhecidos ou totalmente ignorados.
Quando falamos em rock dos anos 60 e 70, são citados artistas como Beatles, Creedence Clearwater Revival, Led Zeppelin, Pink Floyd, Rolling Stones, e é claro, Janis Joplin, mas quem cita Birtha, Fanny, Heart, Suzi Quatro e The Runaways? Claro que estas tiveram certo reconhecimento, mas nem metade do que Janis e as bandas de vocal masculino citadas tiveram. No folk, Bob Dylan é bastante cultuado, enquanto Joan Baez e Joni Mitchel são menos cultuadas do que ele, o que não significa que não tenham uma legião de fãs, mas acredito realmente que elas sejam menos reconhecidas do que Dylan.
No hard rock dos anos 80, bandas como AC/DC, Bon Jovi, Guns N’ Roses, Motley Crue e Poison faziam muito sucesso, já artistas e bandas como Girlschool, Lee Aaron, Lita Ford, Rock Goddess e Vixen tiveram menos reconhecimento. E assim aconteceu em todas as vertentes do rock. No metal e heavy metal, Metallica e Iron Maiden reinavam absolutos, porém o mesmo não aconteceu com a banda Warlock nem com a carreira solo da vocalista Doro Pesch, assim como a banda Phantom Blue. Para que não haja mal entendidos, digo o mesmo que falei sobre Joan Baez e Joni Mitchel sobre a banda Warlock e a vocalista Doro Pesch, sei que tanto a banda quanto a carreira solo de Doro têm inúmeros admiradores e reconhecimento, mas o que quero dizer é que ambas não chegam ao mesmo patamar de sucesso de bandas como Metallica e Judas Priest, o que de maneira alguma faz com que sejam menos importantes. Aliás, nesse sentido, já perdi as contas de quantas vezes já editei esse texto, não só para corrigir erros de português e de digitação, como também reformulando e acrescentando frases para não ser mal interpretado. Minha opinião não é que as mulheres do rock e de suas mais variadas vertentes não têm o seu lugar na música e que tenham passado totalmente despercebidas, o quero dizer é que elas têm menos reconhecimento do que Janis Joplin e do que os homens. Por exemplo: é óbvio que quem aprecia o rock dos anos 60 e 70 conhece Jefferson Airplane e Suzi Quatro, mas estes não são tão cultuados quanto Janis e as bandas com vocal masculino. Já a banda Birtha passou despercebida, tanto é que somente esse ano tive conhecimento desse grupo, que por sua vez tem ótimas músicas e uma vocalista com uma grande voz. Óbvio também que as pessoas que gostam de hard rock, curtem ou pelo menos conhecem Lita Ford e Vixen, mas é evidente que elas tiveram menos sucesso do que Motley Crue e Poison. Essa é a idéia central do texto, de que nem todas as mulheres passaram despercebidas no rock (embora algumas passaram totalmente despercebidas sim), mas acredito que a grande maioria não teve a mesma consagração de Janis Joplin e das bandas formadas por homens.
Quando o grunge explodiu nos anos 90, as bandas mais famosas deste gênero eram Alice In Chains, Nirvana e Pearl Jam. Até que as garotas do L7 resolveram marcar presença no grunge e junto com elas bandas como Hole e Babes in Toyland, porém o sucesso que obteram era mais alternativo e underground, enquanto as bandas grunge formadas apenas por homens faziam um sucesso altamente comercial. E nessa mesma época surgia o brit pop, que revelou ao mundo grupos como Oasis, Blur e Suede, e a única mulher que me recordo de ter feito parte desta “invasão” de artistas da Inglaterra é PJ Harvey.
Mas é justamente nos anos 90 que as coisas começaram a caminhar para uma evolução. As mulheres do rock e de suas mais variadas vertentes começaram a ser mais reconhecidas. No chamado metal melódico, no qual se destacam bandas como Blind Guardian e Helloween, um novo jeito de se fazer este tipo de som chamou a atenção dos amantes do gênero. Eram bandas com guitarras pesadas que constrastavam com a voz suave e lírica das vocalistas, como é o caso das bandas After Forever, Nightwish e Within Temptation. Ainda na década de 90, cantoras e bandas com vocal feminino dominavam as paradas. É o caso de Alanis Morissette, Björk, Gargabe, No Doubt, Roxette, Sheryl Crow, Sinead O’Connor e The Cranberries.
Foi bom ter falado em Sinead O’Connor. Um dia faço um texto para falar apenas sobre ela, mas aproveitando esse texto aqui, na minha opinião esta polêmica e controversa cantora teve umas das atitudes mais corajosas que alguém do show business já teve. Sinead de certa forma acabou com a própria carreira quando rasgou a foto do Papa João Paulo II no programa Saturday Night Live como forma de protesto contra os padres da Igreja Católica que abusavam de crianças. Alguém mais se atreveria a fazer isto em uma época em que a Igreja Católica era ainda mais influente e respeitada do que é hoje? Bem, continuo dizendo que a atitude mais corajosa que alguém já teve no mundo das estrelas da música foi tomada por uma “simples” mulher careca e não por um roqueiro “machão”. E rasgar a foto de um Papa tão amado como foi João Paulo II e ir contra a Igreja Católica é uma atitude mais ousada, corajosa e digna de admiração do que comer morcegos. Alanis Morissette se tornou famosa por escrever músicas confessionais, mas Sinead O’Connor já fazia isso muito antes, em suas músicas de alto teor pessoal, onde falava dos abusos que sofria por parte da mãe. Liz Phair, uma cantora indie da década de 90, também seguia esta mesma linha antes de Alanis ficar famosa, porém nunca teve sucesso comercial. Para quem nunca ouviu falar em Liz Phair, recomendo que escutem a música “Flower”. Nem Madonna, que é tão sensual e ousada, jamais fez uma música com conteúdo semelhante ao de “Flower”.
Enfim chegamos aos anos 2000 e vemos a nova geração escutar Evanescence e Pitty (com suas letras feitas sob medida para adolescentes em fase de formação de personalidade e mensagens cheias de auto-afirmação, exatamente como os teenagers gostam). Pode ser apenas impressão minha, mas talvez a geração de hoje tenha menos preconceito com as mulheres na música e escute tanto bandas lideradas por vocalistas homens quanto mulheres. Então, depois de várias décadas de batalha, as mulheres na música, especialmente no rock, conquistaram seu lugar e hoje em dia tem seu espaço garantido.
Mas o terreno musical que mais quero explorar é o rock, pois é nele que muitos homens brilharam e foram venerados, enquanto muitas artistas femininas passaram despercebidas. Quando se fala em rock n’ roll, a primeira e talvez única mulher que as pessoas lembram é Janis Joplin, enquanto outras artistas não menos talentosas tiveram seus trabalhos pouco reconhecidos ou totalmente ignorados.
Quando falamos em rock dos anos 60 e 70, são citados artistas como Beatles, Creedence Clearwater Revival, Led Zeppelin, Pink Floyd, Rolling Stones, e é claro, Janis Joplin, mas quem cita Birtha, Fanny, Heart, Suzi Quatro e The Runaways? Claro que estas tiveram certo reconhecimento, mas nem metade do que Janis e as bandas de vocal masculino citadas tiveram. No folk, Bob Dylan é bastante cultuado, enquanto Joan Baez e Joni Mitchel são menos cultuadas do que ele, o que não significa que não tenham uma legião de fãs, mas acredito realmente que elas sejam menos reconhecidas do que Dylan.
No hard rock dos anos 80, bandas como AC/DC, Bon Jovi, Guns N’ Roses, Motley Crue e Poison faziam muito sucesso, já artistas e bandas como Girlschool, Lee Aaron, Lita Ford, Rock Goddess e Vixen tiveram menos reconhecimento. E assim aconteceu em todas as vertentes do rock. No metal e heavy metal, Metallica e Iron Maiden reinavam absolutos, porém o mesmo não aconteceu com a banda Warlock nem com a carreira solo da vocalista Doro Pesch, assim como a banda Phantom Blue. Para que não haja mal entendidos, digo o mesmo que falei sobre Joan Baez e Joni Mitchel sobre a banda Warlock e a vocalista Doro Pesch, sei que tanto a banda quanto a carreira solo de Doro têm inúmeros admiradores e reconhecimento, mas o que quero dizer é que ambas não chegam ao mesmo patamar de sucesso de bandas como Metallica e Judas Priest, o que de maneira alguma faz com que sejam menos importantes. Aliás, nesse sentido, já perdi as contas de quantas vezes já editei esse texto, não só para corrigir erros de português e de digitação, como também reformulando e acrescentando frases para não ser mal interpretado. Minha opinião não é que as mulheres do rock e de suas mais variadas vertentes não têm o seu lugar na música e que tenham passado totalmente despercebidas, o quero dizer é que elas têm menos reconhecimento do que Janis Joplin e do que os homens. Por exemplo: é óbvio que quem aprecia o rock dos anos 60 e 70 conhece Jefferson Airplane e Suzi Quatro, mas estes não são tão cultuados quanto Janis e as bandas com vocal masculino. Já a banda Birtha passou despercebida, tanto é que somente esse ano tive conhecimento desse grupo, que por sua vez tem ótimas músicas e uma vocalista com uma grande voz. Óbvio também que as pessoas que gostam de hard rock, curtem ou pelo menos conhecem Lita Ford e Vixen, mas é evidente que elas tiveram menos sucesso do que Motley Crue e Poison. Essa é a idéia central do texto, de que nem todas as mulheres passaram despercebidas no rock (embora algumas passaram totalmente despercebidas sim), mas acredito que a grande maioria não teve a mesma consagração de Janis Joplin e das bandas formadas por homens.
Quando o grunge explodiu nos anos 90, as bandas mais famosas deste gênero eram Alice In Chains, Nirvana e Pearl Jam. Até que as garotas do L7 resolveram marcar presença no grunge e junto com elas bandas como Hole e Babes in Toyland, porém o sucesso que obteram era mais alternativo e underground, enquanto as bandas grunge formadas apenas por homens faziam um sucesso altamente comercial. E nessa mesma época surgia o brit pop, que revelou ao mundo grupos como Oasis, Blur e Suede, e a única mulher que me recordo de ter feito parte desta “invasão” de artistas da Inglaterra é PJ Harvey.
Mas é justamente nos anos 90 que as coisas começaram a caminhar para uma evolução. As mulheres do rock e de suas mais variadas vertentes começaram a ser mais reconhecidas. No chamado metal melódico, no qual se destacam bandas como Blind Guardian e Helloween, um novo jeito de se fazer este tipo de som chamou a atenção dos amantes do gênero. Eram bandas com guitarras pesadas que constrastavam com a voz suave e lírica das vocalistas, como é o caso das bandas After Forever, Nightwish e Within Temptation. Ainda na década de 90, cantoras e bandas com vocal feminino dominavam as paradas. É o caso de Alanis Morissette, Björk, Gargabe, No Doubt, Roxette, Sheryl Crow, Sinead O’Connor e The Cranberries.
Foi bom ter falado em Sinead O’Connor. Um dia faço um texto para falar apenas sobre ela, mas aproveitando esse texto aqui, na minha opinião esta polêmica e controversa cantora teve umas das atitudes mais corajosas que alguém do show business já teve. Sinead de certa forma acabou com a própria carreira quando rasgou a foto do Papa João Paulo II no programa Saturday Night Live como forma de protesto contra os padres da Igreja Católica que abusavam de crianças. Alguém mais se atreveria a fazer isto em uma época em que a Igreja Católica era ainda mais influente e respeitada do que é hoje? Bem, continuo dizendo que a atitude mais corajosa que alguém já teve no mundo das estrelas da música foi tomada por uma “simples” mulher careca e não por um roqueiro “machão”. E rasgar a foto de um Papa tão amado como foi João Paulo II e ir contra a Igreja Católica é uma atitude mais ousada, corajosa e digna de admiração do que comer morcegos. Alanis Morissette se tornou famosa por escrever músicas confessionais, mas Sinead O’Connor já fazia isso muito antes, em suas músicas de alto teor pessoal, onde falava dos abusos que sofria por parte da mãe. Liz Phair, uma cantora indie da década de 90, também seguia esta mesma linha antes de Alanis ficar famosa, porém nunca teve sucesso comercial. Para quem nunca ouviu falar em Liz Phair, recomendo que escutem a música “Flower”. Nem Madonna, que é tão sensual e ousada, jamais fez uma música com conteúdo semelhante ao de “Flower”.
Enfim chegamos aos anos 2000 e vemos a nova geração escutar Evanescence e Pitty (com suas letras feitas sob medida para adolescentes em fase de formação de personalidade e mensagens cheias de auto-afirmação, exatamente como os teenagers gostam). Pode ser apenas impressão minha, mas talvez a geração de hoje tenha menos preconceito com as mulheres na música e escute tanto bandas lideradas por vocalistas homens quanto mulheres. Então, depois de várias décadas de batalha, as mulheres na música, especialmente no rock, conquistaram seu lugar e hoje em dia tem seu espaço garantido.
Não gosto das cantoras que os adolescentes idolatram hoje em dia, sou retrô mesmo e não nego. Às vezes se eu me distraio, se eu não me vigio um instante, eu me transporto para perto de cantoras de outras épocas, que faziam música com mais honestidade...
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